Rios escondidos: veja onde estão os 60 cursos d’água identificados na área urbana de Piracicaba
31/08/2025
(Foto: Reprodução) Obra de canalização do Córrego Itapeva entre os anos de 1955 e 1959 durante o governo de Luciano Guidotti
Prefeitura de Piracicaba
Piracicaba (SP) tem 60 cursos d'água na área urbana. Alguns estão abertos e são notados pela população, mas outros caíram no esquecimento após serem canalizados e, em alguns casos, deram lugar a ruas, avenidas e pontos de inundação. É o que aponta o mapa hidrográfico elaborado pelo geógrafo Luiz Campos, um dos fundadores do projeto Rios e Ruas, ao lado do arquiteto e urbanista José Bueno.
O mapa hidrográfico é dividido em cursos d’água (azul), trechos de rios e córregos canalizados (roxo), espelhos d’água (dourado) e pontos de inundação (vermelho). Confira abaixo:
Mapa hidrográfico de trecho de área urbana de Piracicaba em 2018
Luiz Campos/Rios e Ruas
O mapa, que o g1 teve acesso neste ano, serviu de base para parte da exposição "Rios Des.Cobertos" em 2018, no Sesc de Piracicaba. Na ocasião, houve a instalação interativa de uma maquete 3D para mostrar o processo de urbanização e as transformações dos rios encobertos na cidade.
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Como foi feito o mapa
O geógrafo reforçou que o mapa não abarcou todos os cursos d'água que existem e que ainda podem existir outros que não foram identificados. Para a produção, ele cruzou informações de cinco tipos de fontes:
Análise do Plano Municipal de Saneamento Básico de Piracicaba - Sistema de Drenagem, realizado pelo SEMAE em 2010 – que era o mais atualizado para a época, informou o geógrafo;
Análise de mapas antigos e atuais de Piracicaba;
Levantamento de campo para conferir se o rio mencionado pelos mapas antigos estava canalizado ou aberto, ou se existiam cursos d’água ausentes nos mapas;
Pesquisa em jornais para identificar pontos de inundação na cidade com base em notícias de enchentes, pois onde tem inundação tem um rio que passa, afirmou o geógrafo;
Entrevista com pessoas de Piracicaba que presenciaram o processo de canalização dos rios.
“Pegamos mapas históricos e fomos para campo para perceber o desenho da paisagem. O rio sempre está passando na parte mais baixa do terreno”, informa o geógrafo Luiz Campos.
Atividade de campo do Rios e Ruas em Piracicaba
Rios e Ruas/Divulgação
Rios sem nomes e o esquecimento
Córrego na Rua Ulhoa Cintra ou Córrego das Frutas é um dos cursos d’água batizado pelo projeto durante a análise de campo, afirmou o geógrafo.
Ele nasce perto do Mercadão Municipal de Piracicaba, passa atrás do Sesc e deságua no Rio Piracicaba. Luiz contou que, durante o levantamento de campo, verificaram que esse curso não estava no mapa e não tinha nome, mas estava na memória de alguns piracicabanos, que informaram acessar o córrego nadando a partir do rio Piracicaba nas décadas passadas.
“A gente pesquisa os nomes antigos dos rios e busca recuperá-los. Quando isso não é possível, damos um nome para o rio, porque quando não há nome para o curso d'água, é uma boa estratégia de esquecimento. Se não tem nome, não existe”, informa Luiz.
Córrego das Frutas deságua no rio Piracicaba
Rios e Ruas/Divulgação
Canalização e inundação
Luiz explicou que a canalização de rios envolve diferentes etapas e formas de intervenção ao longo de anos. Inicialmente, pode ocorrer a retificação, que consiste em eliminar curvas naturais do rio para torná-lo mais reto. Isso acelera o fluxo da água e libera áreas laterais para uso urbano, como ocorreu no Rio Tietê em São Paulo (SP), cujas margens foram transformadas em vias para veículos.
Marginal Tietê
Reprodução/TV Globo
Posteriormente, pode-se adotar a canalização aberta, feita por meio de canais escavados, galerias retangulares de concreto ou tubos cilíndricos pré-moldados. O tamanho da estrutura é definido com base na vazão e frequência de chuvas intensas dos últimos anos.
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Obras de canalização do Córrego Itapeva em Piracicaba
Com o avanço da urbanização, muitas vezes o rio passa a ser tamponado: além de retificado e canalizado, é coberto com concreto e sua área superior é ocupada por avenidas ou ciclovias. Nesse modelo, o curso d’água se torna invisível na paisagem, correndo subterrâneo em galerias de concreto. É o que aconteceu com o ribeirão Itapeva, em Piracicaba, que corre embaixo da Avenida Armando de Salles Oliveira, deságua no rio Piracicaba e lembra os piracicabanos que ele está ali durante as épocas de chuva, quando ocorrem inundações na área.
Chuva arrasta carros na avenida Armando Salles em Piracicaba
Juliana Franco/G1
Rios descobertos
Na contramão das canalizações, algumas cidades descobrem os rios cobertos. É o caso de Seul, capital da Coreia do Sul, que tirou a avenida que passava por cima do riacho Cheonggyecheon e transformou o local em um parque. Esse tipo de ação resulta em benefícios, citou o geógrafo, como:
Mais saúde e qualidade de vida para a população;
Melhora da qualidade do ar e da água, que está em contato com o oxigênio;
Diminuição da temperatura local;
Diminuição das inundações;
Promoção de áreas verdes e de lazer nos centros urbanos.
“Com a abertura dos rios, as pessoas estão vendo, elas sabem que ele existe. Se ele estiver fedendo, elas podem reclamar que estão jogando esgoto, que não estão tratando-o bem. Quando ele está em um cano, ele pode estar com o pior aspecto possível, cheio de lixo e que ninguém nem sabe que ele existe”, explica Luiz.
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